Correndo para sobreviver

“Por que você faz esse tipo de prova maluca” é a pergunta que eu mais escuto. Para dizer a verdade eu nunca soube direito a razão até o dia 4 de agosto de 2013. Foi quando eu perdi o meu irmão em um acidente de trânsito.

O choque de perder meu melhor amigo quando ele tinha apenas 39 anos é simplesmente impossível de descrever. Perdi o chão, o teto, as paredes, o ar.  Operei em piloto-automático por dias a fio resolvendo centenas de questões. Precisei engolir a minha própria dor e cuidar da minha família, que foi simplesmente devastada.

Na época eu participava do Desafio Pharmaton e disputava na minha equipe (MPR) uma viagem e uma inscrição para a maratona de Las Vegas. Pensei em desistir de tudo – da vida, da prova, das corridas. Minha mãe não deixou. Me pediu para continuar correndo, pois o Alex não me perdoaria por não lutar por essa vaga. Ele era guerreiro, teimoso e cabeça-dura. Brigava por tudo aquilo que queria até o fim.

Foi pelo meu irmão, pela minha família e pela minha própria sobrevivência que continuei a correr. Eu, que sempre fui muito expansiva, me fechei em copas por meses a fio. Não queria falar com ninguém, treinar com ninguém. Chegava ao Parque do Ibirapuera ou à Universidade de São Paulo (USP) ligava o meu iPod e corria. Corria sem observar o pace. Corria, chorava, pensava. Acabei carimbando o meu passaporte para Vegas com a torcida de muita gente. Na última etapa do Desafio, uma prova de 10K, registrei o meu segundo melhor tempo na distância (46 minutos).

Na maratona, meu BIB Number estampava uma homenagem ao meu irmão. Faço isso em todas as provas agora. Nos meus longos treinos de corrida e caminhada procuro entender o que nos aconteceu e acalmar de alguma forma o meu coração. Busco desesperadamente pela paz (que não sei se existe).

 A corrida me salvou.  No momento mais difícil da minha vida, foi a determinação, a coragem e o foco que ela exige que me permitiram ajudar minha família a se reerguer de alguma forma. Foi nos treinos que eu tentei (e ainda tento) acalmar o meu ódio e superar a minha tristeza. E foi correndo pelas montanhas que me senti – e continuo a me sentir – mais perto do meu irmão.

Assim como fiz no ano passado, levarei novamente as cinzas do Alex comigo. Quero espalhá-las pelo lindo percurso da Patagônia. Ele estará comigo sempre e é com as suas asas que eu pretendo completar os 108 Km do El Cruce Columbia 2015.

 

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