Anjos na Montanha

Eles se materializam de repente, vindos do nada e na hora em que você mais parece precisar. Que corredor de ultramaratonas de montanha não se deparou com um “anjo”?

É assim, dessa forma carinhosa, que eu me refiro àquele corredor que surge para acudir você, normalmente sem saber, quando você menos espera. Nesses meus quatro anos como corredora de montanha, conheci vários e selecionei duas histórias para ilustrar nossos encontros.

O meu anjo e amigo do peito Marcelo Alves eu conheci no El Cruce de 2014. Fazia um baita frio e caía uma garoa chatinha na hora da largada. Quase perdi meu ônibus, larguei praticamente no último pelotão e encapotada até o último fio de cabelo….mesmo. De repente, escuto um “Sua mochila está aberta. Posso fechá-la?”. “Claro, superobrigada”, respondi. Largamos juntos, mas cada um no seu pace. Fazia apenas seis meses que o meu irmão havia falecido, e o meu maior desafio era manter a minha mente focada na prova.

No começo da primeira subida, ele reaparece e começamos a conversar. Acabamos fazendo não apenas o trajeto do primeiro dia, mas a prova toda juntos. Sem o apoio dele, completar teria sido muito mais difícil. Ele soube respeitar o meu luto e me amparou quando eu mais precisei. Somos amigos até hoje, corremos uma boa parte do El Cruce 2015 juntos outra vez e temos planos de nos aventurar por muitas outras provas mundo a fora.

Meu segundo anjo eu conheci na subida insana do Tijuco Preto, na Serra Fina, em Minas Gerais, quando tive uma distensão do diafragma em agosto do ano passado. Seu nome é José Luiz Marins e tenho gratidão eterna por ele. Quem já fez a trilha da Serra Fina sabe que essa subida do Tijuco faz seus pulmões saírem pela boca (o coração já saiu uma meia hora antes). Enquanto eu praguejava mentalmente pela ideia estúpida de me inscrever na Short Mission Brasil, caí de joelhos de repente com uma dor absurda na região abdominal. Não conseguia nem respirar.

Eis que o Marins se materializou do meu lado, me amparou e me acalmou. Com sua voz macia e seu delicioso sotaque carioca, me ajudou a recuperar o foco e a respirar devagar. Para desviar a minha atenção, fez uma foto minha que, apesar do sorriso amarelo, ficou simplesmente linda. Somos amigos virtuais e seguimos em contato permanente.

A amizade que nasce na montanha é eterna. Sou imensamente grata aos anjos que eu já conheci e aos que ainda certamente vou conhecer por lá.


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