Desafio das Serras: uma lição de humildade e de amizade

Enquanto deslizava montanha abaixo amparada pela minha mochila e escorando meus pés nas árvores da encosta até o Poço das Antas sabia que não teria a mínima condição de fazer a segunda etapa do Desafio das Serras 2015 no dia seguinte. Fiquei triste. Muito triste.

Era a terceira vez que a chuva nos castigava no trajeto e a noite já tinha caído. Localizar as marcações na mata escondida sob neblina e utilizando headlamp era outro desafio. A altimetria no relógio registrava pouco mais de 1.200 metros de altitude. Atrás de mim um grupo de amigos que conheci ao longo do percurso se preparava para fazer o mesmo.

Fazia mais de oito horas que eu havia largado da praia de Ubatubamirim e entrado no percurso da prova pelo Parque Estadual da Serra do Mar. Nesse tempo todo caí dezenas de vezes e das mais diferentes formas: de frente, de lado, de cara no chão. Bati a cabeça tão forte que o corredor na minha frente se assustou com o barulho. A lente dos meus óculos quebrou.

A trilha era estreita com tocos pontiagudos e muito cipó. Com a chuva que havia caído por 40 dias em Ubatuba o barro imperava. A subida da Serra do Mar me obrigou a baixar o ritmo muito além do que eu previa. Nunca fui boa de subida apesar do meu empenho. Sofro demais.

Fui ficando para trás. Deixava todo o mundo passar. Estava lenta mesmo. Como estratégia decidi que ia descansar a cada quatro marcações e me dar de presente uma paçoquinha (molhada, mas tudo bem) assim que chegasse ao topo. Olhava a altimetria no relógio: 320 metros. Nossa, ainda faltam mais 1.000 para comer a paçoca….

Me juntei à Anna Carolina e à Maria Teresa em uma das paradas para descanso. Na sequencia encontramos os irmãos Cristo e eles se uniram a nós. Algumas horas depois o Paulo foi integrado ao grupo. Era neles que eu pensava enquanto deslizava morro abaixo.

Nenhum de nós tinha projetado tantas horas de prova ou imaginado que o trajeto seria tão desafiador. Tínhamos agora um único pensamento: sair de uma vez por todas daquela mata. No briefing técnico fomos avisados que no trecho de serra o resgate seria difícil então se não estivéssemos nos sentindo bem a última chance de abandono era no Km 8. Tínhamos que sair de lá. Não havia outra opção.

Três horas depois de deixarmos o Poço das Antas encontramos o carro da organização no km 25. Até o acampamento seriam mais 7 km em estrada de terra e mata. Fomos impedidos de continuar por motivos de segurança. Abri e comi a paçoquinha molhada. Senti o gosto amargo da derrota. Chorei.

Acordei no dia seguinte ainda chateada por ter que desistir. Sob nenhuma hipótese conseguiria fazer o trajeto de volta sem colocar a minha segurança em risco. Deixei minha mala pronta para ir embora e fui descobrir o procedimento para desistir.

Nesse meio tempo a organização informou que o percurso da serra seria retirado e o novo, com 27 Km, realizado pelas trilhas ao redor do acampamento na região de Cunha. Opa. Sem a serra não tinha mais motivos para desistir. Sorri. Conversei com a Anna Carolina e com os irmãos Cristo e decidimos que faríamos juntos a última etapa, que aliás teve mais de 80% de desistência. Trocamos de roupa e fomos para a largada.

Cruzei o pórtico 5 horas e 53 minutos depois completamente exausta, na última colocação e incrivelmente orgulhosa. Abracei meus amigos e fui recebida no acampamento com um carinho imenso, impossível de descrever.

A montanha que eu respeito e amo tanto exigiu o máximo de mim. Se o meu corpo padeceu, minha mente e espírito permaneceram intactos graças aos amigos até então desconhecidos que a montanha me apresentou. Eles dizem que eu os ajudei, mas a verdade é que eles me ajudaram. Sem eles eu teria suportado a dor física, mas não o sofrimento emocional.

O Desafio das Serras foi a prova mais difícil que eu já concluí em quatro anos de dedicação quase exclusiva às provas de montanha. Achei o percurso muito técnico. Me preocupa a realização de corridas de montanha em caminhos nos quais o resgate é muito difícil. Quem se machucou sofreu além da conta para alcançar ao único ponto de resgate no km 25 e levou horas para chegar até o acampamento nos veículos da organização.

Mas a minha crítica vai mesmo é para a informação de distância. Quem corre na montanha sabe que é preciso ser flexível e estar preparado para rápidas adaptações. Um erro de até 15% eu julgo aceitável. Me inscrevi para uma prova de 40 Km que dez dias antes da largada ganhou 15 km adicionais por motivo de segurança (até aí, tudo bem), mas foi realmente uma prova de 59 Km. Essas mudanças inesperadas de distância têm um imenso impacto no planejamento de água e de comida do corredor. Nem menciono o impacto emocional.

Minha gratidão aos muitos amigos anônimos que me estenderam a mão na trilha e me ajudaram a levantar, atravessar rios, pular árvores e assim chegar ao topo da Serra do Mar. Vocês são meus eternos anjos da montanha.

 

Foto oficial Desafio das Serras 2015

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