El Cruce 2015: paisagem e altimetria de tirar o fôlego

Sabe quando algo excepcional te acontece e a ficha demora cair? Pois é, ter concluído o meu terceiro El Cruce me deixou assim, meio que nas nuvens. Também me sinto vazia, pois a preocupação diária com a prova nos últimos sete meses não existe mais. Estranha essa sensação.

Fazendo uma comparação com as edições de 2013 e de 2014, esta foi a prova com o percurso mais técnico e difícil. Quando cheguei ao acampamento após concluir os 26 Km da primeira etapa, o clima era de apreensão. Tínhamos largado já no alto do Cerro Catedral, em Bariloche, após uma carona de lift. A partir de então foram subidas e descidas intermináveis em um terreno extremamente pedregoso até chegarmos à região do lago Gutiérrez. Na sequencia, um single track bastante técnico até o acampamento instalado em Los Baqueanos. Apenas nessa etapa foram 3.350 metros de desnível acumulado. O que esperar para o dia seguinte era o tema principal nas filas, nas mesas de jantar e nas barracas dos 1.400 corredores inscritos na categoria Solo.

A largada para segunda etapa foi organizada considerando o tempo de conclusão do primeiro dia. Larguei com comida suficiente para 12 horas de prova, minha projeção inicial. Foram 42 km de muitas subidas, descidas e lindas planícies, com direito a cruzar diversos rios e riachos de águas cristalinas. Paisagem exuberante para os olhos e altimetria cruel: 3.370 metros de desnível acumulado. Quase desmaiei de felicidade quando avistei o acampamento instalado em Pampa Linda, sobre o rio Manso, 9h54m após ter deixado Los Baqueanos. Cheguei exausta, física e emocionalmente.

A temperatura caiu demais no terceiro dia e largamos “empacotados” para os últimos 34 km do Cruce. Se a distância não parecia um desafio tão grande, a altimetria era: 4.800 metros de desnível acumulado até a chegada final em Puerto Blest. Após 25 km de prova, cruzamos rapidamente a fronteira da Argentina com o Chile pelo Parque Nacional Vicente Perez Rosales em um trajeto capaz de “quebrar” o ânimo de qualquer um: 3 km de subida e outros 3 km de descida. Decidi socar a bota. “Danem-se as dores. Não aguento mais”, pensei. Fechei os olhos e me joguei montanha abaixo.

Na sequencia, fomos transferidos de barco para os 3 km finais até Puerto Blest, na Argentina. O tempo que ficamos parados aguardando o transfer entre a chegada no Paso Internacional Perez Rosales até a nova largada nas proximidades de Puerto Blest foi descontado de nosso tempo final.

Concluí meu terceiro Cruce em 26h22m39. Foi, sem sombra de dúvidas, a prova mais desafiadora que já fiz. Sobrevivi a dois cortes de tempo, uma tendinite, um dedo do pé luxado e cinco unhas roxas. Cicatrizes de guerra como chamo.

Adorei cada treino, mesmo tendo reclamado nas rodagens finais. Adorei cada subida, cada descida. Aprendi com cada tombo. E foram muitos este ano. Descobri que posso sempre ir além, mesmo que não seja tão rápido quanto gostaria. Aprendi a importância da solidariedade, da amizade e do planejamento. Aprendi que não sou nada frente à força da natureza. Aprendi com a querida e cativante Elisa Forti, corredora de 80 anos (tema do meu próximo post), que correr contra o cronômetro não é relevante e que é sempre tempo de recomeçar.

Porém a minha maior lição, aquela que eu sempre procuro passar para quem está estreando nesse tipo de prova, é que no final das contas o que te leva a cruzar a linha de chegada é a sua mente, algumas vezes mais que o seu corpo. Nesta edição meu corpo foi testado e quase sucumbiu. Mas minha mente venceu, uma vez mais, repetindo ao exaustão durante esses 102 Km “Stay Strong”, mantra que criei com o maior carinho para a minha temporada 2015 nas montanhas.

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